domingo, 29 de agosto de 2010

Santo Agostinho

Aurelius Augustinus nasceu em Tagaste (Numídia) em 354, filho de um funcionário municipal, Patrício, e de Mônica, fervorosa cristã, que a Igreja venera como santa. Embora sua mãe fosse cristã, Agostinho não se interessou por religião quando jovem.

Como estudante, vivia desregradamente. Contraiu uma ligação – que iria durar até 384, e da qual teve um filho, Adeodato. Em 374, lendo o Hortensius, de Cícero, sentiu-se atraído por uma vida menos sensual e mais dedicado à busca da verdade. Passou a freqüentar as lições dos maniqueus, que lhe pareciam propor a autêntica forma de cristianismo, em oposição à doutrina da Igreja. Em pouco tempo, em sua cidade natal, abriu uma escola. Tornou-se professor de retórica e aos 32 anos converteu-se ao cristianismo.

De volta a Tagaste, vendeu as propriedades que herdara dos pais e fundou uma comunidade monástica. Foi nomeado a sacerdote da igreja de Hipona, função que teve até a morte, 430.

Principais obras foram: Confissões, autobiografia escrita entre 397 e 400, uma das obras-primas da literatura universal; A Cidade de Deus, apologia da antiguidade cristã e ensaio de filosofia da História; De Trinitate; Enchiridion, compêndio de doutrina cristã; obras polêmicas várias contra as heresias mencionadas, entre as quais Contra Faustum, De spiritu et littera, De natura er gratia, De gratia et libero arbitrio, De correptione et gratia, De praedestinatione sanctorum; obras exegéticas, como Enarrationes in Psalmos, De genesi ad litteram, Tratado sobre o Evangelho de são João; obras pastorais, como De catechizandis rudibus; cerca de 400 sermões e muitas cartas.

Sócrates

Sócrates nasceu em Atenas, provavelmente no ano de 470 a. C. Adquiriu a cultura tradicional dos jovens atenienses, aprendendo música, ginástica e gramática e tornou-se um dos principais pensadores da Grécia Antiga. Podemos afirmar que Sócrates fundou o que conhecemos hoje por filosofia ocidental. Foi influenciado pelo conhecimento de outro importante filósofo grego: Anaxágoras. Seus primeiros estudos e pensamentos discorrem sobre a essência da natureza da alma humana.

Durante a guerra civil, quando já era septuagenário, o filósofo foi acusado de desrespeitar os deuses do Estado e de corromper os jovens. O pensador foi julgado e condenado à morte por envenenamento, ele se recusou a fugir ou a renegar suas convicções para salvar a vida. Bebeu cicuta (planta tóxica) e morreu rodeado por seus amigos, em 339 a. C.

Conhecemos seus pensamentos e idéias através das obras de dois de seus discípulos: Platão e Xenofontes. Infelizmente, Sócrates não deixou por escrito seus pensamentos.

Algumas frases e pensamentos atribuídos ao filósofo Sócrates:

* “A vida que não passamos em revista não vale a pena viver”.
* “A palavra é o fio de ouro do pensamento.”
* “Sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância”.
* “É melhor fazer pouco e bem, do que muito e mal.”
* “Alcançar o sucesso pelos próprios méritos. Vitoriosos os que assim procedem”.
* “A ociosidade é que envelhece não o trabalho.”
* “O início da sabedoria é a admissão da própria ignorância.”
* “Chamo de preguiçoso o homem que podia estar melhor empregado”.
* “Há sabedoria em não crer saber aquilo que tu não sabes”.
* “Não penses mal dos que procedem mal; pense somente que estão equivocados”.
* “O amor é filho de dois deuses, a carência e a astúcia”.
* “A verdade não está com os homens, mas entre os homens”.
* “Quatro características deve ter um juiz: ouvir cortesmente, responder sabiamente, ponderar prudentemente e decidir imparcialmente”.
* “Quem melhor conhece a verdade é mais capaz de mentir”.
* “Sob a direção de um forte general, não haverá jamais soldados fracos”.
* “Todo o meu saber consiste em saber que nada sei”.
* “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo de Deus”.

Tomás de Aquino

Tomás de Aquino nasceu em 1225, no castelo de Roccasecca, na Campânia, da família feudal dos condes de Aquino. Era unido pelos laços de sangue à família imperial e às famílias reais de França, Sicília e Aragão. Recebeu a primeira educação no grande mosteiro de Monte Cassino, passando a mocidade em Nápoles como aluno daquela universidade, onde entrou em contato com a obra de Aristóteles. . Depois de ter estudado as artes liberais, entrou na ordem dominicana, renunciando a tudo, salvo à ciência. Tal acontecimento determinou uma forte reação por parte de sua família; entretanto, Tomás triunfou da oposição e se dedicou ao estudo assíduo da teologia, tendo como mestre Alberto Magno, primeiro na universidade de Paris (1245-1248) e depois em Colônia.

O resto da sua vida se resumiu à atividade acadêmica, com uma interrupção de alguns anos para trabalhar como conselheiro da Cúria Papal, em Roma. Perto do fim da vida, Tomás voltou a Universidade de Nápoles, para dar aulas. Morreu em 1274, na abadia de Fossanova (hoje centro da Itália). Foi canonizado em 1323 e nomeado “doutor da Igreja” em 1567.

domingo, 15 de agosto de 2010

A religião sem razão
Apesar de criticar a intolerância religiosa, Voltaire acredita que a crença é importante para a sociedade. Mas a aceitação de seus dogmas sem questionamento levou o homem ao fanatismo, à barbárie e à destruição

Por Márcio Müller


“A crença forte só prova a sua força, não a verdade daquilo em que se crê” NIETZSCHE

Muitas pessoas concordam com a ideia propagada de que “religião não se discute”. De fato, não se discute a convicção de cada um, mas é possível entender o significado das religiões e da busca constante do sentido da vida pelo ser humano. Com base em registros históricos, sabe-se que o ser humano se relaciona com a dimensão divina há milhares de anos.

No entanto, o relacionamento humano com o divino já proporcionou capítulos de horror ao longo da história. E um dos mais intrigantes e sanguinários ocorreu na Europa, mais precisamente na França, entre os séculos XVI e XVIII. Nessa época, arrogava-se normalmente o direito de atormentar homens por suas crenças. Dentre as vítimas, os mais dignos de pena eram seguramente os protestantes.

François-Marie Arouet, o filósofo francês conhecido como Voltaire (16941778) vivenciou este período e alargou inúmeras reflexões sobre a tolerância. Humanista liberal, defensor da justiça, estabelece um combate à intolerância e ao fanatismo, pela análise de vários exemplos de perseguições.

O filósofo condena claramente as lutas religiosas quando afirma que “esta horrível discórdia, que dura há tantos séculos, constitui a lição bem expressiva que devemos perdoar-nos mutuamente os nossos erros; a discórdia é o grande mal do gênero humano e a tolerância seu único remédio” (Dicionário filosófico, 1973, p.298). Mais que uma reflexão analítica, a participação de Voltaire na construção da tolerância como valor moral se deve à defesa radical da condição humana. Ele diz que devemos nos tolerar porque somos fracos, inconsequentes e sujeitos ao erro e à mutabilidade.

ARQUIVO CIÊNCIA & VIDA
Aprovação do Estatuto Social da Companhia de Jesus, obra de Johann Handke. Voltaire criticava as religiões que pareciam ter como único objetivo garantir um trono a seus pontífces, ainda que fundado na miséria ou no sangue do povo

O ponto de partida escolhido para sua campanha contra a perseguição religiosa foi o ocorrido na noite de 13 de outubro de 1761, em Toulouse, em que um pai, juntamente com sua família, é condenado pelo enforcamento do próprio filho que apenas pretendera converter-se ao catolicismo numa terra de católicos, contra a vontade de um pai calvinista. Tempos depois, este homem é torturado, quebrado vivo, estrangulado e atirado numa fogueira ardente Supostamente, aos olhos do parlamento local, fazia-se justiça ao assassino.

Infelizmente este caso não difere de vários outros casos ocorridos, nem sequer pelo fato, de anos mais tarde, a França ter reconhecido a inocência do condenado Jean Calas, um bom homem, trabalhador e respeitado pela comunidade. O que se tornou digno de registro não foi exclusivamente o erro da justiça ou o horror na prática de tortura, mas aquilo que motivou a condenação de um homem inocente: a intolerância religiosa. De todas as religiões, a cristã, segundo Voltaire, é a que deveria inspirar mais tolerância, embora os cristãos tenham sido os mais intolerantes de todos os homens. Todo o empenho é para que haja tolerância religiosa no ímpeto da Cristandade, e que os diferentes cristãos saibam tolerar-se uns aos outros.

Durante o exílio na Inglaterra, Voltaire ficara admirado com o pluralismo religioso ali instituído, em contraste com a situação francesa. Alguns anos antes do seu nascimento, a religião reformada era proibida no reino da França, e foi somente em 1787 que Luís XVI decidiu promulgar um “edital de tolerância” em favor dos súditos que não pertenciam à religião católica. É neste ambiente de intolerância religiosa que Voltaire cresceu, alimentando uma profunda antipatia pelo fanatismo. Seu grande objetivo apontava para um pluralismo religioso, argumentando que, quanto mais seitas houver, menos perigosa cada uma será, pois a multiplicidade as enfraquece: “Se entre nós houver duas religiões, hão de cortar-se o pescoço; se houver trinta, viverão em paz”.
O empenho é para que haja tolerância no ímpeto da Cristandade, e que os diferentes cristãos saibam tolerar-se uns aos outros


ARQUIVO CIÊNCIA & VIDA
Na imagem, a execução de um inca. Com a descoberta da América, os espanhóis proibiam as religiões nativas e mpuseram o cristianismo. A intolerância levou a humanidade a cometer crimes bárbaros

Apesar de seus ataques muitas vezes violentos contra algumas religiões, Voltaire não era ateu. O filósofo detestava o ateísmo e culpava o dogmatismo cristão e a superstição de muitos crentes pelo aumento da quantidade de ateus. Ele entendia que era melhor o ser humano ser subjugado por todas as superstições possíveis, desde que não causasse barbárie alguma, do que viver sem religião. O homem sempre teve a necessidade de um freio e, mesmo que tenha sido ridículo fazer determinados sacrifícios, era mais plausível e útil adorar essas imagens fantasiosas da divindade do que viver sem acreditar em nada. “Um ateu polêmico, violento e robusto seria um flagelo tão funesto quanto um supersticioso sanguinário” (Tratado sobre a tolerância).

FREIO DIVINO

A religião é necessária em qualquer lugar que houver uma sociedade estabelecida, pois enquanto as leis reprimem os crimes conhecidos, de um lado, do outro a religião se encarrega dos crimes secretos. Quando o homem não tem noções claras e sadias da divindade, as ideias falsas ocupam seu lugar – como durante épocas infelizes que se fazia comércio com moeda falsa na falta da verdadeira – e temem cometer qualquer ato hediondo com medo de uma punição divina.

Se levarmos em conta o fato da necessidade da religião, do homem reverenciar o sobrenatural para buscar compreensões e um sentido à própria vida, qual é o motivo de se lançar ao fanatismo que leva à destruição, à morte e à intolerância ao próximo? “Um homem que recebe sua religião sem exame não difere de um boi que atrelam”. (O túmulo do fanatismo). Examinar, questionar, é um dever de qualquer um que respeita a razão. Seguir uma crença somente porque é a crença dos pais seria um tremendo engano. Quando se questiona quantos filhos de cristãos são muçulmanos, ou quantos filhos de muçulmanos são cristãos, tem-se uma clara noção de como o puro acidente geográfico ao nascimento exerce enorme influência na crença religiosa.

Dogmas X Cotidiano

O comportamento sexual da humanidade, ao menos no Ocidente, não foi mais o mesmo depois da década de 1960. Uma série de acontecimentos concentrados neste período – como o surgimento da pílula contraceptiva, o movimento hippie e o Woodstock – pavimentou o caminho para o que fcou conhecido como “Revolução Sexual”, com maior tolerância ao sexo fora do casamento, à homossexualidade, ao erotismo e a uma série de questões que envolvem a liberdade sexual.

Se por um lado o comportamento da humanidade mudou, por outro alguns dogmas religiosos continuaram intactos. Daí vêm confitos cotidianos e muita polêmica. No início deste ano, por exemplo, a Igreja Católica se viu envolvida em dois escândalos. Em um deles, o arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, defendeu a excomunhão dos responsáveis pelo aborto de uma menina de 9 anos que havia sido estuprada pelo padrasto e estava grávida de gêmeos. A Igreja Católica condena o aborto em qualquer circunstância por acreditar que a alma passa a existir no novo ser a partir do momento em que o óvulo é fecundado pelo espermatozoide.

Outra polêmica ocorreu na visita do papa Bento XVI à África, região do planeta mais afetada pela Aids. Ele declarou que a distribuição de preservativos não era a forma correta de combater a disseminação do vírus HIV. A Igreja Católica condena o uso de camisinha e encoraja a abstinência sexual como forma de combater a disseminação da doença.

Evangélicos também se confrontam com a realidade atual, já que defendem ser o sexo aceito por Deus apenas entre um homem e uma mulher, casados, e para gerar flhos.

Intolerância Religiosa

Como defende Voltaire, a religião pode ser uma espécie de freio para a humanidade ao evitar que o homem cometa uma série de crimes por medo do castigo divino. Por outro lado, ela também pode provocar barbaridades e destruição ao propagar a intolerância. Isso ocorre quando há a aceitação de dogmas religiosos sem um questionamento racional. A seguir, listamos algumas atrocidades cometidas em nome da fé:
Giordano Bruno

Catolicismo e a Inquisição

A igreja católica punia com penas que variavam do confsco de bens até a morte – às vezes na fogueira – aqueles que negavam, segundo a visão católica, os ensinamentos de Cristo e a doutrina da igreja, ferindo a ortodoxia. Essas punições fcaram conhecidas como Inquisição ou Santa Inquisição. Os primeiros Tribunais da Inquisição surgiram no século XII e só tiveram o fm formal no século XIX. O herege precisava sempre ser eliminado publicamente. Entre as vítimas famosas da Inquisição está Giordano Bruno (1548-1600), flósofo e frade dominicano que foi condenado à morte na fogueira por defender a teoria heliocêntrica de Copérnico.

Islamismo e Terrorismo

A guerra santa islâmica, conhecida como Jihad, já fez milhões de vítimas pelo mundo em nome da fé. Ela é um dos cinco pilares do islamismo e procura converter o maior número de pessoas para sua religião. De acordo com a crença religiosa, quem morre na Jihad é enviado diretamente ao paraíso, sem ser punido por seus pecados. O aspecto sanguinário da Jihad é ligado aos homens-bomba e aos atos de terrorismo contra o Ocidente. Mas há controvérsias se eles de fato fazem parte da Jihad. Questiona-se se ela só pode ser travada para defender fsicamente seus féis ou se pode ser aplicada para recuperar terras que já pertenceram aos muçulmanos e para defender o Islã contra infuências que corrompem a religião.
Imagens: ARQUIVO CIÊNCIA & VIDA
Shiva, deus hindu

Hinduísmo e Discriminação

O hinduísmo divide a população em castas de acordo com a origem familiar. Os Dalits não pertecem às castas e, por isso, vistos como impuros e são altamente discriminados. Por séculos, os Dalits viveram à margem da sociedade indiana, situação que está um pouco mudada, mas o preconceito ainda existe. Gandhi foi um grande defensor dos Dalits, lutando contra a discriminação que o sistema de castas provocava.
Imagens: ARQUIVO CIÊNCIA & VIDA
Judeus no Yom Kipur, de Maurycy Gottlieb

Judaísmo e Perseguições

Judeus já perseguiram e foram perseguidos em decorrência de sua fé. O cristianismo começou como uma seita do judaísmo e, portanto, os primeiros cristãos foram perseguidos por heterodoxia. Jesus Cristo e os apóstolos foram vítimas, segundo a Bíblia. Com a conversão de Constantino I, o primeiro imperador romano a reconhecer a religião cristã, foram os judeus que passaram a ser perseguidos. À parte desta história, não se pode esquecer o massacre de judeus perseguidos pelo regime nazista de Adolf Hitler.

As várias seitas fundadas no cristianismo provocam, por vezes, a suposição de serem sistemas equivocados. Mas por que? Porque o homem sábio deve pensar consigo mesmo: se Deus quisesse fazer conhecido seu culto a todos, seria pelo fato desse culto ser necessário a todos. Também, se fosse tão necessário, ele mesmo teria dado esse culto, assim como deu olhos e boca para todas as pessoas. Seria uniforme por toda parte, pois todas as coisas necessárias aos homens são universais, como a faculdade da razão, comum a todas as nações civilizadas.
Se [o culto de Deus] fosse tão necessário, ele teria dado a todos esse culto, como deu olhos e boca para as pessoas

As críticas embasadas de Voltaire, além de também serem ao judaísmo, estão principalmente centradas no cristianismo, mas quando diz que “a desconfiança aumenta quando se percebe que o objetivo de todos aqueles que estão à frente das seitas é dominar e enriquecer quanto puderem, e que, desde os daris do Japão até os bispos de Roma, a única preocupação foi erguer para um pontífice um trono fundado na miséria dos povos e muitas vezes cimentado com seu sangue”.

Em 1755, no dia de Todos os Santos, ocorreu em Lisboa um forte terremoto. Não se tratava apenas de um dos tantos terremotos que os europeus conheciam, mas sim o pior da história do velho continente que se tem registro. A maioria das pessoas estava na missa. Muitos morreram sob os escombros de igrejas que ruíram. Ondas gigantescas engoliram rapidamente as áreas mais baixas da cidade. Para o cúmulo da desgraça, seguiu-se um terrível incêndio que destruiu boa parte do que havia sobrado do terremoto por seis dias. O total de mortos jamais será conhecido. A maioria indica que mais de 30 mil acabaram morrendo. Tamanha catástrofe, como não poderia deixar de ser, provocou inúmeras polêmicas das quais participaram os filósofos Voltaire e J. J. Rousseau, rivais ideológicos do movimento iluminista.
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Para decidir a questão, de John George Brown. Para Voltaire, o homem não deve se basear em dogmas religiosos para tomar suas decisões e sim usar a razão. Ele vê o fanatismo religioso como o pior inimigo da razão

Na ocasião, o clero procurou explicar o terremoto como uma punição divina aos pecadores da cidade de Lisboa. Que Ser Superior era aquele, tido por Benfeitor Universal, que não ousou em dizimar grande parte de uma população, metendo numa mesma embrulhada de castigos os idosos, as mulheres e as crianças, que certamente não tinham a menor ideia do que poderia vir a ser um pecado? Não só os esmagou, como os afogou e os queimou em massa. Fogo este alimentado por milhares de velas acesas nas casas e nos altares das igrejas, que estavam repletas de fiéis. E logo onde! Logo em Lisboa, a mais carola de todas as capitais da cristandade.

Desde então, o filósofo tornou-se inimigo da Religião organizada, visto que entendeu a pregação dos padres como um insulto da superstição aos milhares de mortos e mutilados pelo desastre. Sua indignação frente as fanatismo clerical é nítida, o que podemos notar no seu Poème sur lê desastre de Lisbonne, escrito naquele mesmo ano, em 24 de novembro, daquele mesmo ano.

Voltaire questionava, portanto, se Deus é bom, poderoso e justo, por que permitiu tal tragédia, e não poupou nem as criancinhas? No fundo, ele coloca uma questão que todos já nos fizemos: como compatibilizar o mal com a ideia de um Deus caritativo? “É preciso dizer: o mal está na terra:/ Seu princípio secreto é desconhecido:/Do autor de todo bem terá ele partido:”, diz um trecho do poema.

Na tentativa de entender esta catástrofe, Voltaire, de um lado, questiona a Grandeza de Deus por não poupar nem os inocentes. Ele tenta compreender a bondade divina que permitiu a existência do mal. Epicuro é citado em sua exortação a Lisboa ao concluir que, ou Deus quis impedir o mal e não pode, ou pode e não quis, ou nem quis e nem pode. Mas, se quis e não pode, não é Deus; se pode e não quis, não é bom, o que é contrário a Deus. “Se quer e pode, o que é a única coisa compatível com a divindade, qual é a origem de todos os males?” questiona Epicuro.

o outro lado, aparece J.J.Rousseau, que publicou uma resposta ao poema de Voltaire em forma de carta, a Lettre sur la Providence, inocentando Deus e a natureza de toda culpa. Rousseau prefere atribuir a culpa aos homens, processo que resulta numa visão bastante moderna do problema dos terremotos. Como bem observa, não foi a natureza que, numa área relativamente pequena, reuniu 20 mil casas, algumas com seis ou sete andares, a encontrarem-se assim todos amontoados as margens do rio Tejo. Se vivessem mais dispersos, mais afastados uns dos outros, provavelmente o desastre seria bem menor. Além disso, “quantos infelizes pereceram neste desastre porque quiseram pegar, uns as suas roupas, outro, sua papelada, outro, seu dinheiro?”.


Voltaire (16941778), flósofo francês, foi um árduo defensor das liberdades, inclusive da liberdade religiosa. Suas ideias infuenciaram pensadores da Revolução Francesa. Escritor político, usava suas obras para criticar as instituições francesas e a Igreja Católica

Aquele que não aceita questionar sua fé e sua religião perdeu esta capacidade inerente a todo homem: o pensar

Embora pareça óbvio que as consequências de um terremoto (ou mesmo de uma enchente, furacão ou outros desastres naturais) são inseparáveis do tipo de sociedade na qual ocorre o desastre, essa era uma ideia totalmente nova no século XVIII.

O fanatismo religioso era e é o pior inimigo da razão “a carcereira impiedosa da razão”. Essa ideia foi sustentada na polêmica em defesa da Encyclopédie, de Diderot e de D’Alembert, contra católicos conservadores. Em 1758, quando a obra desses pensadores sofria fortes retaliações, Voltaire exortava dizendo a estes para lançarem-se “contra a canalha”, aniquilando seus sofismas, seus absurdos, suas vãs declarações. A “canalha”, exortada por Voltaire, eram os padres acusados de “fechar a razão humana nas cadeias do dogma”. No entanto, havia uma exceção: os padres céticos, que liam e admiravam Voltaire.
<< A obra de Jules-Eugène Lenepveu (1819-1898), retrata Joana d’Arc, mártir francesa, heroína da Guerra dos Cem Anos, sendo queimada viva ao ser condenada por heresia e bruxaria. Mais tarde, a igreja reconheceu sua inocência e a beatifcou

OPRESSORES DA RAZÃO

Os padres eram considerados opressores da razão e dos sagrados direitos. No Dicionário filosófico, Voltaire não lhes perdoa as ofensas à razão. Escreve: “quando um padre diz ‘Adorai a Deus, sede justo, indulgente e bondoso’, é um bom médico. Quando diz ‘acreditai em mim ou sereis queimado’, é um assassino”. De imediato, somos levados a pensar que Voltaire odiava o clero com toda sua ira, mas não é bem isso. Voltaire não suportava a forma com que o clero pregava o cristianismo. Conta que na França, um cura chamado João Meslier, ao morrer, pediu perdão a Deus por ter ensinado o cristianismo a seus paroquianos. Essa confissão mostra como a prática do cristianismo era cruel e abusiva, pois, além do clero não temer a Deus, usava o nome de Deus para sufocar e instigar as pessoas contra outras seitas.
Terremoto ocorrido em Lisboa, em 1755, que deixou cerca de 30 mil mortos. A Igreja disse ser uma punição divina contra pecadores da cidade e Voltaire se revoltou contra essa explicação

A intolerância mais bárbara entre os cristãos, sem dúvida, dava-se na França. Eram os próprios cristãos os perseguidores, os carrascos e os assassinos dos próprios irmãos. Destruíam cidades com crucifixo ou Bíblia na mão, sem cessar de derramar sangue e acender fogueira. Contudo, essa era uma prática que não se dava em todos os países da Europa. Se muitas destas barbáries foram encabeçadas pelo clero francês, padres católicos de nenhum outro país protestante agiam assim, segundo Voltaire, dando como exemplo os padres da Inglaterra e da Irlanda que ali viviam pacificamente. A indignação estava na tentativa de encontrar uma resposta ao porquê de sua nação ser sempre a última a abraçar as opiniões saudáveis dos outros países.

Para Benjamim Franklin, “o jeito de ver pela fé é fechar os olhos da razão”. De fato, os homens precisam exercitar a razão, e não aceitar seus dogmas de forma fanática e cega. O raciocinar pela metade só leva ao fanatismo e falsas superstições, pois aquele que não aceita questionar sua fé, seus dogmas e sua religião, perdeu esta capacidade inerente a todo homem: o pensar. Este homem passa a ser um indivíduo que apenas repete “verdades” reveladas, por mais absurdas que sejam. A humanidade ainda tem muito para avançar se destruir de vez o fanatismo religioso de seu interior, que tanta desgraça e destruição tem trazido ao mundo.


Referências

VOLTAIRE. Tratado sobre a tolerância. São Paulo: Martins Fontes, 2005

_________. O túmulo do fanatismo. São Paulo: Martins Fontes, 2006

_________. Cartas filosóficas. São Paulo: Martins Fontes, 2007

_________. Dicionário filosófico


Márcio Müller é graduado em Filosofa pela Universidade de Passo Fundo UPF/RS, mestrando em Filosofa pela PUC/SP e professor da rede pública e privada do Estado de São Paulo

Tolerância



ARQUIVO CIÊNCIA & VIDA
A ressurreição de Cristo, obra de Raffaello Sanzio (1500)
De todas as religiões, a cristã é, sem dúvida, aquela que mais deve inspirar tolerância, embora até hoje os cristãos tenham sido os mais intolerantes de todos os homens. Jesus, dignando-se nascer na pobreza e na humildade, assim como seus irmãos, nunca se dignou a praticar a arte de escrever. Os judeus tinham uma lei escrita com os maiores detalhes e nós não temos uma única linha escrita por Jesus. Os apóstolos se dividiram a respeito de diversos pontos. São Pedro e São Barnabé comiam carnes proibidas com os Dicionário Filosófco de Voltaire Tolerância - Seção II novos cristãos estrangeiros e se abstinham delas com os cristãos judeus. São Paulo lhes recriminava essa conduta, mas esse mesmo Paulo, fariseu, discípulo do fariseu Gamaliel, esse mesmo Paulo que havia perseguido os cristãos com furor e que, tendo rompido com Gamaliel, ele próprio se fez cristão, em seguida dirigiu-se, no entanto, a Jerusalém, para oferecer sacrifícios no templo, no período de seu apostolado. Observou publicamente, durante oito dias, as cerimônias da lei judaica, á qual havia renunciado; acrescentou até devoções e purifcações que as havia em abundância; agiu inteiramente como judeu. O maior apóstolo dos cristãos fez durante oito dias as mesmas coisas pelas quais os homens são condenados à fogueira em grande parte dos povos cristãos.

Teudas, Judas, se haviam arvorado em Messias antes de Jesus. Dositeu, Simão, Menandro, se apresentaram como Messias depois de Jesus. Houve, desde o primeiro século da Igreja, aproximadamente vinte seitas Judeia.

Os gnósticos contemplativos, os seguidores de Dositeu, os partidários de Cerinto existiam antes que os discípulos de Jesus tivessem assumido o nome de cristãos. Logo houve trinta Evangelhos, pertencendo cada um deles a uma sociedade diferente; e desde o fnal do século I, podemos contar trinta seitas de cristãos na Ásia Menor, na Síria, em Alexandria e mesmo em Roma.

Todas essas seitas, menosprezadas pelo governo romano e escondidas em sua obscuridade, se perseguiam, no entanto, umas às outras nos subterrâneos, onde rastejavam, isto é, proferiam sua abjeção; quase todas elas eram compostas unicamente do segmento mais desprezível da sociedade.

Quando, finalmente, alguns cristãos abraçaram os dogmas de Platão e misturaram um pouco de Filosofa à sua religião, que separaram da judaica, tornaram-se imperceptivelmente mais respeitados, mas sempre divididos em várias seitas, sem que nunca tenha havido um só momento em que a Igreja cristã estivesse unida. Surgiu no meio das divisões dos judeus, dos samaritanos, dos fariseus, dos saduceus, dos essênios, dos judaítas, dos discípulos de João, dos terapeutas. Esteve dividida em seu berço, esteve também nas próprias perseguições que sofreu sob os primeiros imperadores.

Muitas vezes o mártir era considerado como uma apóstata por seus irmãos e o cristão carpocratiano expirava sob a espada dos carrascos romanos, excomungado pelo cristão ebionita, o qual era anatematizado pelo adepto de Sabélio.

Essa horrível discórdia, que já dura há tantos séculos, é uma lição realmente marcante de que devemos perdoar mutuamente nossos erros; a discórdia é o grande mal do gênero humano e a tolerância é seu único remédio.

Não há ninguém que discorde dessa verdade, seja que medite calmamente em seu recinto particular, seja que examine pacifcamente a verdade com seus amigos. Por que, pois, os mesmo homens que admitem em particular a indulgência, a benevolência, a justiça, se levantam em público com tanto furor contra essas virtudes? Por quê? È que seu interesse é seu deus, é porque sacrifcam tudo a esse monstro que adoram.



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Possuo uma dignidade e um poder que a ignorância e a credulidade criaram; caminho sobre as cabeças dos homens que séculos de fanatismo tornaram poderosos. Eles têm outros poderosos sob o jugo deles e estes têm outros ainda, e todos se enriquecem com os despojos do pobre, se engordam com seu sangue e riem da imbecilidade dele. Todos eles detestam a tolerância, como homens que enriqueceram às custas do público têm medo de prestar contas e como tiranos receiam a palavra liberdade. Finalmente, contrataram a soldo fanáticos que gritaram em alta voz: " Respeitem os absurdos de meu senhor, tremam, paguem e calem-se."

Foi assim que se agiu durante muito tempo em grande parte da terra; mas hoje, que tantas seitas disputam o poder, que partido tomar? Toda seita, como se sabe, é um sinal de erro; não há seita de geômetras, de algebristas, de matemáticos, porque todas as proposições de geometria, de álgebra e de matemática são verdadeiras. Em todas as outras ciências, podemos nos enganar. Qual teólogo tomista ou escotista ousaria dizer com convicção que está absolutamente certo daquilo que afrma? Se há uma seita que relembra os tempos dos primeiros cristãos é, sem sombra de dúvida, a dos quacres. Nada se assemelha mais aos apóstolos. Estes recebiam o espírito, e os quacres recebem o espírito. Os apóstolos e os discípulos falavam em três ou quatro ao mesmo tempo na assembleia do terceiro andar, os quacres fazem outro tanto no térreo. Era permitido, segundo São Paulo, às mulheres pregar e, segundo o mesmo São Paulo, era-lhes também proibido; as mulheres quacres pregam em virtude da primeira permissão.
"De todas as religiões, a cristã é, sem dúvida, aquela que mais deve inspirar tolerância, embora até hoje os cristãos tenham sido os mais intolerantesde todos os homens"

Os apóstolos e os discípulos juravam com um sim ou com um não; os quacres não juram de outra forma. Nada de altos dignitários, nada de aparência diferente entre os discípulos e os apóstolos; os quakers usam mangas sem botões e todos vestem da mesma maneira.Jesus Cristo não batizou nenhum de seus apóstolos; os quacres não são batizados.

Seria fácil levar adiante esses paralelos; seria mais fácil ainda mostrar como a religião cristã de hoje difere daquela que Jesus praticou. Jesus era judeu e nós não somos judeus. Jesus se abstinha da carne de porco porque o animal é impuro e da lebre porque rumina e não tem a pata fendida; nós comemos ousadamente carne de porco, porque para nós não é impuro e comemos carne de lebre que tem a pata fendida e não rumina.

Jesus era circuncidado e nós conservamos nosso prepúcio. Jesus comia cordeiro pascal com ervas amargas, celebrava a festa dos tabernáculos e nós não fazemos nada disso. Ele observava o sábado e nós o trocamos;


A religião sob o martelo filosófico


Reportagens

Por que, até hoje, ela nunca promoveu efetivamente a elevação ética e espiritual do ser humano como deveria.

Por Jaya Hari Das*

O cidadão cedeu seu direito à liberdade ao Estado, enquanto o homem, seu direito ao autoconhecimento à religião. Algumas poucas nações podem, categoricamente, vangloriar-se de terem acertado no primeiro caso, mas quase nenhuma haverá de admitir que o mesmo ocorreu com elas no segundo. Esperar que os governos satisfizessem as necessidades básicas da sociedade agora parece tão vão quanto achar que as religiões institucionais fossem modelos para a formação do homem íntegro. Aliás, se esta análise for feita no âmbito ocidental, onde Estado e Igreja, por longo tempo, andaram de mãos danegativo. Pelo menos, isso é o que se chega à conclusão, quando se perscruta resumidamente a história do homem em busca de sua felicidade e de sua essência – uma epopeia espiritual, repleta de derrotas e conquistas, de revoltas e sacrifícios, de crenças e desilusões, protagonizada por homens simples e “avatares”.
Durante um longo período de obscuridade – da Pré-história até o surgimento da “razão” – muita coisa se produziu na mente humana e no mundo e solidificou-se como “verdade”. Exemplos disso são os mitos e os oráculos, que surgiram como pura necessidade de preencher o vazio da falta de explicação para alguns eventos dentro e fora do próprio homem. Se, por um lado, eles eram a única possibilidade de demonstrar a verdade, por outro, também davam espaço para a manipulação dessa verdade por parte dos sacerdotes, seus intérpretes. Desta forma, por falta de explicações melhores (assim como de uma exigência intelectual não desabrochada até então), quem tinha (ou tomava para si) a “autoridade de interpretar” exercia o poder de “revelar a verdade”. No mais das vezes, porém, a verdade estava longe de tudo aquilo que era dito ou ensinado, o que fez, desde então, com que a mentira e a ignorância andassem definitivamente de mãos dadas (mas quem haveria de suspeitar e questionar?!). Foi, provavelmente, nesses obscuros momentos da História que, assombrados por seus sonhos, suas visões, seus temores e suas superstições, aqueles homens de então se viram forçados a “inventar” suas “Entidades Superiores”, suas “Divindades”, seus “deuses e deusas” – uma forma de aliviarem seus espíritos, açoitados pelo terror do “desconhecido”. Assim, deram nomes, formas e atributos a tais seres sobrenaturais e iniciaram um aglomerado de práticas, cada uma das quais supostamente úteis para agradar ou aplacar a cólera dos tais “Senhores Invisíveis”.
Avatares
Grandes mestres, considerados como encarnações da Divindade. De acordo com a crença oriental, são exemplos desses mestres, que sempre vêm à Terra promover uma limpeza espiritual: Jesus Cristo, Buda e Krishna.

A ferro e fogo
Esses ritos foram sendo aprimorados e difundidos entre os povos primitivos, passando a ser praticados rigorosamente, como se, na falta deles, algo de muito ruim pudesse acontecer. Tais práticas ritualísticas certamente se modificaram ao longo do tempo, em razão da mistura de povos (conquistadores e conquistados) e da necessidade de adequação, de atualização dos costumes e dos padrões morais e culturais. No entanto, os elementos fundamentais de sua criação (poder e domínio) e os de sua manutenção (temor e adoração) continuaram os mesmos, e assim, hoje em dia, não importando a que culto esteja ligado, o fiel é um “náufrago”, que boia em pleno mar, segurando-se em duas pequenas tábuas, o medo e a esperança.
Foi, sem dúvida, dessa forma que tais cultos se perpetuaram até nossos dias, passando a ser chamados de “religiões”, muito bem guarnecidas pelos “senhores da verdade” – aqueles que se apropriaram dos ensinamentos dos “avatares” e, mantendo o rótulo, porém, trocando o conteúdo, venderam (e ainda vendem) “frascos da verdade” nas praças de mercados. E, apesar de todos os males que têm causado ao homem, em particular, e à Humanidade, em geral, por incrível que pareça, ainda conquistam adeptos (mesmo entre os homens mais ilustres e ilustrados deste planeta).
Sem qualquer conhecimento sobre o que realmente foi dito e feito pelos verdadeiros mestres da Humanidade (os avatares ), esses crentes de fé cega, seja pela condição miserável de suas vidas, seja por falta de acesso a outros escritos que confrontam as versões “oficiais” desses credos, nem suspeitam que tais doutrinas, longe de promoverem a elevação espiritual do ser humano, ocupam-se prioritariamente em tomar para si o monopólio da Verdade, produzir mentiras metafísicas, acobertar crimes contra a Humanidade, promover guerras contra os opositores de suas convicções, impedir o avanço do conhecimento e do autoconhecimento (pois, com a iluminação interior e exterior, suas tramas falaciosas viriam à luz), entre outros delitos de mesmo cunho.
As vítimas dessas doutrinas falaciosas não se encontram apenas entre os homens comuns, muitos filósofos e pensadores não foram capazes de se desvencilhar das malhas desses credos perniciosos; não perceberam nem intuíram os males advindos dali. Felizmente, outros esclarecidos não só enxergaram tais barbáries, como também se recusaram a fazer parte delas e denunciaram-nas explicitamente, como é o caso do britânico Bertrand Russell. São suas as palavras: “A igreja é perniciosa não apenas no que diz respeito à intelectualidade, mas também à moralidade”. Tal sentença é fortemente explorada ao longo de toda sua argumentação e o pensador amplia sua crítica à religião institucional ao dizer: “Minha visão pessoal a respeito da religião é a mesma de Lucrécio. Vejo-a como uma doença derivada do medo e como fonte de tristeza incalculável para a raça humana. Não posso, no entanto, negar que ela realizou, sim, algumas contribuições à civilização. No início, ajudou a estabelecer o calendário e fez com que os sacerdotes egípcios relatassem eclipses com cuidado tal que, com o tempo, tornaram-se capazes de prevê-los. Estou pronto a admitir esses dois serviços prestados, mas não sei de mais nenhum outro”.

Bertrand Russell (1872 - 1970)Filósofo, matemático e prêmio Nobel de Literatura de 1950. Em seu livro Porque não sou cristão (L&PM Editores), que traz logo em seu frontispício o aviso: “Um livro que coloca ao leitor questões que nunca mais poderão ser ignoradas”, o nobre pensador desfia um novelo de razões pelas quais não é mais uma presa do cristianismo e considera os males causados pela principal religião do Ocidente.

Busca pela verdade
De um lado, não faltam, na História da Humanidade, homens cuja espiritualidade é inquestionável; homens cuja vida foi, em si mesma, uma espécie de “religião”. Homens que pareciam nada ter de especial, homens comuns, que levavam uma vida simples e normal, mas que traziam dentro de si a chama
que acalenta a sincera busca da Verdade – a ânsia de encontrar sua “essência como centelha divina”. Essa busca, inevitavelmente, aos poucos, transforma a vida simples desse buscador em uma “via para o Essencial Absoluto”, produz, na história desse “peregrino do espírito”, “o momento do insight”, “o ponto de mutação”. Assim foi para Agostinho de Hipona (354 – 405), quando vivenciou sua própria “experiência de Damasco” (referência à conversão de Saulo, de perseguidor de cristãos a apóstolo do Cristo, passando a chamar-se Paulo). Agostinho, aquele jovem buscador, conhecia suas limitações, suas fraquezas, suas imperfeições. Entre lágrimas de dor e de ameaçadora desesperança, ele sentencia, como um ultimatum: “Noverim me, noverim Te!”, ou seja: “quero saber quem sou e quem és Tu!”. Só então compreende que a busca da Verdade é a busca do homem por si mesmo, pois a Verdade só pode ser encontrada no âmago da alma humana – “qui novit veritatem, novit aeternitatem”. Ao ser perguntado, “o que lança o homem para além de si mesmo, à procura de Deus?”, Agostinho devolveu a seguinte resposta: “Fecisti nos ad Te et inquietum est cor nostrum, donec requiescat in Te” – que quer dizer: “Tu nos fizeste para Ti e o nosso coração permanece inquieto enquanto em Ti não repousar” (Confissões, 1, 1.1).
Apesar de meritórios exemplos de homens que se pode elencar, dentre os mais valiosos para o cristianismo, assim como para outros credos religiosos, por outro lado, não faltam homens cuja indecência, perversidade e ambição tentaram, pretensiosamente, esconder sob o manto sacerdotal. Não faltam no mundo seitas e religiões que abrigam em seu seio a pior espécie de homem, os piores assassinos, os maiores corruptores dos mesmos valores que fingem defender – a vida, a honra e a dignidade humanas. Dos pedófilos da cristandade aos radicais do Islã, ainda resta um cortejo de falsos milagreiros, profetas do fim do mundo, santos dos últimos dias, gurus de Rolls-Royces, corretores das moradias celestiais, sacerdotes do capital ilícito e discípulos dos psicotrópicos, entre outros. “Sobrecarregada está a terra dos muitos-demais”, assim nos alertara o filósofo alemão, Friedrich Nietzsche, em seu Assim falou Zaratustra, contra essa dissimulada espécie de “rebanho”. “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!”, também não custa acrescentar. O afã indomável, que há no ser humano, de retornar ao seio de sua “matriz” é legítimo, mas, ao mesmo tempo, torna-o vulnerável à malignidade dos prestidigitadores espirituais.
Ao cair nas malhas dessa religiosidade de mercado, os denominados “fiéis” nem sequer percebem a distância que há entre os ensinamentos dos grandes mestres da humanidade (os avatares) e as doutrinas de homens comuns a que se fidelizaram. O que me faz recorrer, novamente, a Bertrand Russell, na obra já citada, ao dizer: “Peguemos como exemplo o caso que mais interessa aos integrantes da civilização ocidental: os ensinamentos de Cristo, tal como aparecem nos evangelhos, têm tido extraordinariamente pouco a ver com a ideia dos cristãos. A coisa mais importante sobre o cristianismo, do ponto de vista social e histórico, não é Cristo, e sim a Igreja, de modo que, se formos julgar o cristianismo como força social, não devemos recorrer aos Evangelhos em busca de material”. O pensamento do ilustre britânico não se restringe a essa “fissura” cristã, ou seja, essa “sutil” diferença entre o que é propriamente do Cristo e o que é sumariamente da Igreja (lembremos da exortação do Nazareno: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é Deus”). Um pouco mais adiante, na mesma obra, Russell acrescenta: “O que é verdadeiro a respeito do cristianismo é igualmente verdadeiro a respeito do budismo. Buda era amável e iluminado; em seu leito de morte, riu dos discípulos que o julgavam imortal. Mas o sacerdote budista – tal como ele existe, por exemplo, no Tibet – tem sido obscurantista, tirânico e cruel no mais alto nível. Nada existe de acidental em relação a essa diferença entre uma igreja e seu fundador”.

Lucrécio
Titus Lucretius Carus foi um poeta e filósofo latino que viveu no século 1 a.C. Adepto do epicurismo, acreditava que a corrente era a chave que poderia garantir a felicidade humana. Por meio da filosofia epicurista, propôs- se a libertar os romanos do domínio religioso.

Dogmas institucionais
Peço licença ao nobre pensador britânico apenas para fazer uma pequena ressalva sobre seu texto: nenhum dos avatares (Cristo, Buda ou qualquer outro) foi fundador de qualquer das pretensas religiões institucionais, que se apropriaram e monopolizaram seus nomes, suas vidas e seus ensinamentos (este é outro fato que os rebanhos de fiéis jamais se preocuparam em constatar); enquanto os ensinamentos desses grandes mestres tendiam para a libertação de seus seguidores do jugo do autoritarismo político, social e religioso e para a boa relação entre os povos, essas instituições religiosas transformaram em dogmas ou em “mistérios divinos” cada palavra proferida, criando dissensões e promovendo a intolerância entre as nações de credos diferentes, apenas para favoreceremse e firmarem-se como “donas da verdade” e, assim, dominarem seus rebanhos de crentes.
Dito isto, retorno a Russell, para “ouvir”, mais uma vez, próprio filósofo dizer aquilo que, com minhas palavras, talvez soasse sem o mesmo brilho: “Logo que se supõe que a verdade absoluta está contida nos dizeres de certo homem, eis que surge um corpo de especialistas para interpretar seus dizeres, e esses especialistas invariavelmente adquirem poder, já que detêm a chave para a verdade. Assim como qualquer outra casta privilegiada, usam seu poder em benefício próprio. São, no entanto, sob certo aspecto, piores do que qualquer casta privilegiada, já que seu negócio é expor uma verdade imutável, revelada de uma vez por todas em perfeição absoluta, de modo que se transformam necessariamente em oponentes de todo progresso intelectual e moral”.
Questionada mais a fundo, mais filosoficamente, esse tipo de religiosidade institucional, no mais das vezes, se demonstra, além de falaciosa, ilusória, como podemos perceber nas palavras do filósofo de Königsberg, Immanuel Kant (1724 – 1804), em seu A Religião nos Limites da Simples Razão: “Ora, considerar de uma maneira geral essa fé estatutária (que, sempre limitada a um povo, não pode encerrar a universal religião do mundo) como essencial para o serviço de Deus e fazer dela a condição suprema para que o homem seja agradável a Deus, aí está uma “ilusão religiosa”, e conformar- se a ela constitui um falso culto, ou seja, uma falsa adoração a Deus que é, na realidade, um ato contrário ao culto verdadeiro exigido pelo próprio Deus”.

Como disse já anteriormente, outros homens não se deixaram apanhar nas teias dessa aranha hipnotizadora que é a religião institucional, a despeito dos males e das perseguições que sofreram por causa disso. Todos nós, homens e mulheres do Ocidente, sabemos da chamada “caça às bruxas” da Igreja Católica Apostólica Romana, que, com sua “Santa Inquisição”, também perseguiu e torturou pensadores e cientistas que estavam “em desacordo” com suas ideias, interesses e ideais. Os homens e mulheres, de todos os tempos, nos quatro cantos do mundo, mormente aqui no Ocidente, que se preocupavam ou se ocupavam com “fazeres benéficos” ao avanço sociocultural e espiritual do Homem, sentiram na pele os entraves que representam essas grandes religiões ao progresso científico e à busca filosófica do ser humano por seu fundamento verdadeiro. Um desses homens foi Franciscus Van den Enden (1602 – 1674), também conhecido como Affinius (seu nome latinizado), instrutor de latim de Baruch de Spinoza e influenciador de sua vertente filosófica. Van den Enden considerava que “se a igualdade e a iluminação, no sentido de compreender a verdade das coisas, são prérequisitos essenciais para a riqueza comum e duradoura, então, uma república viável é inconcebível sem o fim da religião organizada, a qual não é nada além de um instrumento político para disciplinar e controlar o povo por meio da ignorância e credulidade”.
Outras vozes se levantaram contra o poder da Santa Igreja e deixaram sua marca de oposição em frases bem objetivas. Friedrich Nietzsche (1844 – 1900), por exemplo, declarou a morte da Igreja de Roma e suas dissidências a partir da morte de seu fundamento capital – “Deus está morto!” (Assim Falou Zaratustra); Karl Marx (1818 – 1883), percebendo a forma como a religião destrói no homem seu ímpeto de revolução diante das injustiças sociais, bradou: “A religião é o ópio do povo!” (Crítica da Filosofia do Direito de Hegel); (Crítica da Filosofia do Direito de Hegel); rebelando-se contra a intermediação de certos homens entre o buscador da Verdade e Deus, Jean-Jacques Rousseau (1712 – 1778) reclamou: “Quantos homens entre mim e Deus!” (Emílio, livro IV).
Enquanto multidões de fiéis incautos se acotovelam para receber a bênção, a instrução ou o darshan de seus padres, pastores e gurus, na verdade, o que temos é um sem-número de inocentes, que se deixam enganar por milagres teatrais, que sofrem a usurpação de seus bens ou que são iludidos com o fato de que foram tocados por uma encarnação divina. É claro que deve haver autênticos “avatares”, sacerdotes e gurus, assim como há autênticos buscadores da Verdade, mas já é mais que hora de separarmos o joio do trigo.


*JAYA HARI DAS é graduado em Filosofia pela Universidade Federal do Maranhão – UFMA, professor de Filosofia e de Língua Inglesa

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Biografias de Importantes Filósofos e Sociólogos




Nascimento 384 a.C.
Estagira, Calcídica

Morte 322 a.C.
Grécia [Atena]
Nacionalidade Grego [Filósofo Grego]
Ocupação Filósofo e Professor

Escola/tradição Escola peripatética, Academia de Platão, Realismo, Fundacionalismo

Principais interesses Política, Metafísica, Ciência, Lógica, Ética

Idéias notáveis Lógica, Biologia, Doutrina do meio-termo, Metafísica, Razão

Influências Parmênides, Sócrates, Platão, Heráclito

Influenciados Alexandre Magno, Al-Farabi, Avicena, Averróis, Alberto Magno, Copérnico, Galileu Galilei, Ptolomeu, Tomás de Aquino, e a maior parte da filosofia islâmica, filosofia cristã, filosofia ocidental e a ciência em geral

Aristóteles (em grego Αριστοτέλης) (Estagira, Calcídica, 384 a.C. - 322 a.C.) foi um filósofo grego, aluno de Platão e professor de Alexandre, o Grande, considerado um dos maiores pensadores de todos os tempos e criador do pensamento lógico.
Aristóteles figura entre os mais influentes filósofos gregos, ao lado de Sócrates e Platão, que transformaram a filosofia pré-socrática, construindo um dos principais fundamentos da filosofia ocidental. Aristóteles prestou contribuições fundantes em diversas áreas do conhecimento humano, destacando-se: ética, política, física, metafísica, lógica, psicologia, poesia, retórica, zoologia, biologia, história natural.
É considerado por muitos o filósofo que mais influenciou o pensamento ocidental, a exemplo das palavras que ele criou e que passaram para quase todas as línguas modernas (atualidade, axioma, categoria, energia, essência, potencial, potência, tópico, virtualidade e muitas outras). Sua influência também pode ser percebida na obra "A Divina Comédia" de Dante Alighieri já que toda a astronomia dantesca se funda em Aristóteles e seus comentadores.
Foi chamado por Augusto Comte de "o príncipe eterno dos verdadeiros filósofos", por Platão de "o leitor" (pela avidez com que lia e por se ter cercado dos livros dos poetas, filósofos e homens da ciência contemporâneos e anteriores) e, pelos pensadores árabes, de o "preceptor da inteligência humana". Por ter estudado uma variada gama de assuntos, e por ter sido também um discípulo que em muito sentidos ultrapassou o mestre, Platão, é conhecido também como O Filósofo. Aristóteles também foi chamado de o estagirita, pela terra natal, Estagira.

Vida
Filho de Nicômaco, amigo e médico pessoal do rei macedônio Amintas III, pai de Filipe II.[1] É provável que o interesse de Aristóteles por biologia e fisiologia decorra da atividade médica exercida pelo pai e pelo tio, e que remonta a dez gerações.
Com cerca de 16 ou 17 anos partiu para Atenas, maior centro intelectual e artístico da Grécia. Como muitos outros jovens da época, foi para lá prosseguir os estudos. Duas grandes instituições disputavam a preferência dos jovens: a escola de Isócrates, que visava preparar o aluno para a vida política, e Platão e sua Academia, com preferência à ciência (episteme) como fundamento da realidade. Apesar do aviso de que, quem não conhecesse Geometria ali não deveria entrar, Aristóteles decidiu-se pela Academia platônica e nela permaneceu 20 anos, até 347 a.C., ano que morreu Platão.
Com a morte do grande mestre e com a escolha do sobrinho de Platão, Espeusipo, para a chefia da Academia, Aristóteles partiu para Assos com alguns ex-alunos. Dois fatos parecem se relacionar com esse episódio: Espeusipo representava uma tendência que desagradava imensamente Aristóteles, isto é, a matematização da filosofia; e Aristóteles ter-se sentido preterido (ou rejeitado), já que se julgava o mais apto para assumir a direção da Academia.
Em Assos, Aristóteles fundou um pequeno círculo filosófico com a ajuda de Hérmias, tirano local e eventual ouvinte de Platão. Lá ficou por três anos e casou-se com Pítias, sobrinha de Hérmias. Assassinado Hérmias, Aristóteles partiu para Mitilene, na ilha de Lesbos, onde realizou a maior parte das famosas investigações biológicas. No ano de 343 a.C. chamado por Filipe II, tornou-se preceptor de Alexandre, função que exerceu até 336 a.C., quando Alexandre subiu ao trono.
Neste mesmo ano, de volta a Atenas, fundou o «Lykeion», origem da palavra Liceu cujos alunos ficaram conhecidos como peripatéticos (os que passeiam), nome decorrente do hábito de Aristóteles de ensinar ao ar livre, muitas vezes sob as árvores que cercavam o Liceu. Ao contrário da Academia de Platão, o Liceu privilegiava as ciências naturais. Alexandre mesmo enviava ao mestre exemplares da fauna e flora das regiões conquistadas. O trabalho cobria os campos do conhecimento clássico de então, filosofia, metafísica, lógica, ética, política, retórica, poesia, biologia, zoologia, medicina e estabeleceu as bases de tais disciplinas quanto a metodologia científica.
Aristóteles dirigiu a escola até 324 a.C., pouco depois da morte de Alexandre. Os sentimentos antimacedônios dos atenienses voltaram-se contra ele que, sentindo-se ameaçado, deixou Atenas afirmando não permitir que a cidade cometesse um segundo crime contra a filosofia (alusão ao julgamento de Sócrates). Deixou a escola aos cuidados do principal discípulo, Teofrasto (372 a.C. - 288 a.C.) e retirou-se para Cálcis, na Eubéia. Nessa época, Aristóteles já era casado com Hérpiles, uma vez que Pítias havia falecido pouco tempo depois do assassinato de Hérmias, seu protetor. Com Hérpiles, teve uma filha e o filho Nicômaco. Morreu a 322 a.C.
O pensamento aristotélico
A tradição representa um elemento vital para a compreensão da filosofia aristotélica. Em certo sentido, Aristóteles via o próprio pensamento como o ponto culminante do processo desencadeado por Tales de Mileto. A filosofia pretendia não apenas rever como também corrigir as falhas e imperfeições das filosofias anteriores. Ao mesmo tempo, trilhou novos caminhos para fundamentar as críticas, revisões e novas proposições.
Aluno de Platão, Aristóteles discorda de uma parte fundamental da filosofia. Platão concebia dois mundos existentes: aquele que é apreendido por nossos sentidos, o mundo concreto -, em constante mutação; e outro mundo - abstrato -, o das idéias, acessível somente pelo intelecto, imutável e independente do tempo e do espaço material. Aristóteles, ao contrário, defende a existência de um único mundo: este em que vivemos. O que está além de nossa experiência sensível não pode ser nada para nós.
Lógica
Para Aristóteles, a Lógica é um instrumento, uma introdução para as ciências e para o conhecimento e baseia-se no silogismo, o raciocínio formalmente estruturado que supõe certas premissas colocadas previamente para que haja uma conclusão necessária. O silogismo é dedutivo parte do universal para o particular; a indução, ao contrário, parte do particular para o universal. Dessa forma, se forem verdadeiras as premissas, a conclusão, logicamente, também será.
Física
A concepção aristotélica de Física parte do movimento, elucidando-o nas análises dos conceitos de crescimento, alteração e mudança. A teoria do ato e potência, com implicações metafísicas, é o fundamento do sistema. Ato e potência relacionam-se com o movimento enquanto que a matéria e forma com a ausência de movimento.
Para Aristóteles, os objetos caíam para se localizarem corretamente de acordo com a natureza: o éter, acima de tudo; logo abaixo, o fogo; depois a água e, por último, a terra.

Psicologia
A Psicologia é a teoria da alma e baseia-se nos conceitos de alma (psykhé) e intelecto (noûs). A alma é a forma primordial de um corpo que possui vida em potência, sendo a essência do corpo. O intelecto, por sua vez, não se restringe a uma relação específica com o corpo; sua atividade vai além dele.
O organismo, uma vez desenvolvido, recebe a forma que lhe possibilitará perfeição maior, fazendo passar suas potências a ato. Essa forma é alma. Ela faz com que vegetem, cresçam e se reproduzam os animais e plantas e também faz com que os animais sintam.
No homem, a alma, além de suas características vegetativas e sensitivas, há também a característica da inteligência, que é capaz de apreender as essências de modo independente da condição orgânica.
Ele acreditava que a mulher era um ser incompleto, um meio homem. Seria passiva, ao passo que o homem seria ativo.
Biologia
A biologia é a ciência da vida e situa-se no âmbito da física (como a própria psicologia), pois está centrada na relação entre ato e potência. Aristóteles foi o verdadeiro fundador da zoologia - levando-se em conta o sentido etimológico da palavra. A ele se deve a primeira divisão do reino animal.
Aristóteles é o pai da teoria da abiogênese, que durou até séculos mais recentes, segundo a qual um ser nascia de um germe da vida, sem que um outro ser precisasse gerá-lo (exceto os humanos): um exemplo é o das aves que vivem à beira das lagoas, cujo germe da vida estaria nas plantas próximas.
Ainda no campo da biologia, Aristóteles foi quem iniciou os estudos científicos documentados sobre peixes sendo o precursor da ictiologia (a ciência que estuda os peixes), catalogou mais de cem espécies de peixes marinhos e descreveu seu comportamento. É considerado como elemento histórico da evolução da piscicultura e da aquariofilia.[2]
Metafísica
O termo "Metafísica" não é aristotélico; o que hoje chamamos de metafísica era chamado por Aristóteles de filosofia primeira. Esta é a ciência que se ocupa com realidades que estão além das realidades físicas que possuem fácil e imediata apreensão sensorial.
O conceito de metafísica em Aristóteles é extremamente complexo e não há uma definição única. O filósofo deu quatro definições para metafísica:
1. a ciência que indaga causas e princípios;
2. a ciência que indaga o ser enquanto ser;
3. a ciência que investiga a substância;
4. a ciência que investiga a substância supra-sensível.
Os conceitos de ato e potência, matéria e forma, substância e acidente possuem especial importância na metafísica aristotélica.
As quatro causas
Para Aristóteles, existem quatro causas implicadas na existência de algo:
• A causa material (aquilo do qual é feita alguma coisa, a argila, por exemplo);
• A causa formal (a coisa em si, como um vaso de argila);
• A causa eficiente (aquilo que dá origem ao processo em que a coisa surge, como as mãos de quem trabalha a argila);
• A causa final (aquilo para o qual a coisa é feita, cite-se portar arranjos para enfeitar um ambiente).
A teoria aristotélica sobre as causas estende-se sobre toda a Natureza, que é como um artista que age no interior das coisas.
Essência e acidente
Aristóteles distingue, também, a essência e os acidentes em alguma coisa.
A essência é algo sem o qual aquilo não pode ser o que é; é o que dá identidade a um ser, e sem a qual aquele ser não pode ser reconhecido como sendo ele mesmo (por exemplo: um livro sem nenhum tipo de estória ou informações estruturadas, no caso de um livro técnico, não pode ser considerado um livro, pois o fato de ter uma estória ou informações é o que permite-o ser identificado como "livro" e não como "caderno" ou meramente "maço de papel").
O acidente é algo que pode ser inerente ou não ao ser, mas que, mesmo assim, não descaracteriza-se o ser por sua falta (o tamanho de uma flor, por exemplo, é um acidente, pois uma flor grande não deixará de ser flor por ser grande; a sua cor, também, pois, por mais que uma flor tenha que ter, necessariamente, alguma cor, ainda assim tal característica não faz de uma flor o que ela é).
Potência, ato e movimento
Todas as coisas são em potência e ato. Uma coisa em potência é uma coisa que tende a ser outra, como uma semente (uma árvore em potência). Uma coisa em ato é algo que já está realizado, como uma árvore (uma semente em ato). É interessante notar que todas as coisas, mesmo em ato, também são em potência (pois uma árvore - uma semente em ato - também é uma folha de papel ou uma mesa em potência). A única coisa totalmente em ato é o Ato Puro, que Aristóteles identifica com o Bem. Esse Ato não é nada em potência, nem é a realização de potência alguma. Ele é sempre igual a si mesmo, e não é um antecedente de coisa alguma. Desse conceito Tomás de Aquino derivou sua noção de Deus em que Deus seria "Ato Puro".
Um ser em potência só pode tornar-se um ser em ato mediante algum movimento. O movimento vai sempre da potência ao ato, da privação à posse. É por isso que o movimento pode ser definido como ato de um ser em potência enquanto está em potência.
O ato é portanto, a realização da potência, e essa realização pode ocorrer através da ação (gerada pela potência ativa) e perfeição (gerada pela potência passiva).
Ética
No sistema aristotélico, a ética é a ciência das condutas, menos exata na medida em que se ocupa com assuntos passíveis de modificação. Ela não se ocupa com aquilo que no homem é essencial e imutável, mas daquilo que pode ser obtido por ações repetidas, disposições adquiridas ou de hábitos que constituem as virtudes e os vícios. Seu objetivo último é garantir ou possibilitar a conquista da felicidade.
Partindo das disposições naturais do homem (disposições particulares a cada um e que constituem o caráter), a moral mostra como essas disposições devem ser modificadas para que se ajustem à razão. Estas disposições costumam estar afastadas do meio-termo, estado que Aristóteles considera o ideal. Assim, algumas pessoas são muito tímidas, outras muito audaciosas. A virtude é o meio-termo e o vício se dá ou na falta ou no excesso. Por exemplo: coragem é uma virtude e seus contrários são a temeridade (excesso de coragem) e a covardia (ausência de coragem).
As virtudes se realizam sempre no âmbito humano e não têm mais sentido quando as relações humanas desaparecem, como, por exemplo, em relação a Deus. Totalmente diferente é a virtude especulativa ou intelectual, que pertence apenas a alguns (geralmente os filósofos) que, fora da vida moral, buscam o conhecimento pelo conhecimento. É assim que a contemplação aproxima o homem de Deus.
Política


Alexandre e Aristóteles
Na filosofia aristotélica a política é um desdobramento natural da ética. Ambas, na verdade, compõem a unidade do que Aristóteles chamava de filosofia prática.
Se a ética está preocupada com a felicidade individual do homem, a política se preocupa com a felicidade coletiva da pólis. Desse modo, é tarefa da política investigar e descobrir quais são as formas de governo e as instituições capazes de assegurar a felicidade coletiva. Trata-se, portanto, de investigar a constituição do estado.
Acredita-se que as reflexões aristotélicas sobre a política originam-se da época em que ele era preceptor de Alexandre, o Grande.
Direito
Para Aristóteles, assim como a política, o direito também é um desdobramento da ética. O direito para Aristóteles é uma ciência dialética, por ser fruto de teses ou hipóteses, não necessariamente verdadeiras, validadas principalmente pela aprovação da maioria.
Retórica
Aristóteles considerava importante o conhecimento da retórica, já que ela se constituiu em uma técnica (por habilitar a estruturação e exposição de argumentos) e por relacionar-se com a vida pública. O fundamento da retórica é o entimema (silogismo truncado, incompleto), um silogismo no qual se subentende uma premissa ou uma conclusão. O discurso retórico opera em três campos ou gêneros: gênero deliberativo, gênero judicial e gênero epidítico (ostentoso, demonstrativo).
Poética
A poética é imitação (mimesis) e abrange a poesia épica, a lírica e a dramática: (tragédia e comédia). A imitação visa a recriação e a recriação visa aquilo que pode ser. Desse modo, a poética tem por fim o possível. O homem apresenta-se de diferentes modos em cada gênero poético: a poesia épica apresenta o homem como maior do que realmente é, idealizando-o; a tragédia apresenta o homem exaltando suas virtudes e a comédia apresenta o homem ressaltando seus vícios ou defeito.
Astronomia
O cosmos aristotélico é apresentado como uma esfera gigantesca, porém finita, à qual se prendiam as estrelas, e dentro da qual se verificava uma rigorosa subordinação de outras esferas, que pertenciam aos planetas então conhecidos e que giravam em torno da Terra, que se manteria imóvel no centro do sistema (sistema geocêntrico).[3]
Os corpos celestes não seriam formados por nenhum dos chamados quatro elementos transformáveis (terra, água, ar, fogo), mas por um elemento não transformável designado "quinta essência". Os movimentos circulares dos objetos celestes seriam, além de naturais, eternos.
Obra
A filosofia aristotélica é um sistema, ou seja, a relação e conexão entre as várias áreas pensadas pelo filósofo. Seus escritos versam sobre praticamente todos os ramos do conhecimento de sua época (menos as matemáticas).
Embora sua produção tenha sido excepcional, apenas uma parcela foi conservada. Seus escritos dividiam-se em duas espécies: as 'exotéricas' e as 'acroamáticas'. As exotéricas eram destinadas ao público em geral e, por isso, eram obras de caráter introdutório e geralmente compostas na forma de diálogo. As acroamáticas, eram destinadas apenas aos discípulos do Liceu e compostas na forma de tratados. Praticamente tudo que se conservou de Aristóteles faz parte das obras acroamáticas. Da exotéricas, restaram apenas fragmentos.
O conjunto das obras de Aristóteles é conhecido entre os especialistas como corpus aristotelicum.
O Organon, que é a reunião dos escritos lógicos, abre o corpus e é assim composto:
• Categorias: análise dos elementos do discurso;
• Sobre a interpretação: análise do juízo e das proposições;
• Analíticos (Primeiros e Segundos): análise do raciocínio formal através do silogismo e da demonstração científica;
• Tópicos: análise da argumentação em geral;
• Elencos sofísticos: tido como apêndice dos Tópicos, analisa os argumentos capciosos.
Em seguida, aparecem os estudos sobre a Natureza e o mundo físico. Temos:
• Física;
• Sobre o céu;
• Sobre a geração e a corrupção;
• Meteorológicos.
Segue-se a Parva naturalia, conjunto de investigações sobre temas relacionados.

• Da alma;
• Da sensação e o sensível;
• Da memória e reminiscência;
• Do sono e a vigília;
• Dos sonhos;
• Da adivinhação pelo sonho;
• Da longevidade e brevidade da vida;
• Da Juventude e Senilidade;
• Da Respiração;
• História dos Animais;
• Das Partes dos Animais;
• Do Movimento dos Animais;
• Da Geração dos Animais;
• Da Origem dos Animais.
Após os tratados que versam sobre o mundo físico, temos a obra dedicada à filosofia primeira, isto é, a Metafísica. Não se deve necessariamente entender que 'metafísica' signifique uma investigação sobre um plano de realidade fora do mundo físico. Esta é uma interpretação neoplatônica.
À filosofia primeira, seguem-se as obras de filosofia prática, que versam sobre Ética e Política. Estas reflexões têm lugar em quatro textos:
• Ética a Nicômaco;
• Ética a Eudemo (atualmente considerada como uma primeira versão da Ética a Nicômaco);
• Grande Moral ou Magna Moralia (resumo das concepções éticas de Aristóteles);
• Política (a política, para Aristóteles, é o desdobramento natural da ética)
Existem, finalmente, mais duas obras:
• Retórica;
• Poética (desta obra conservam-se apenas os tratados sobre a tragédia e a poesia épica).
O corpus aristotelicum ainda inclui outros escritos sobre temas semelhantes, mas hoje sabe-se que são textos apócrifos. Aristóteles havia registrado as constituições de todas as cidades gregas, mas julgava-se que esses escritos haviam se perdido. No século XIX, contudo, foi descoberta a Constituição de Atenas, única remanescente.
Linha do tempo
384 a.C. – Aristóteles nasce em Estagira, Macedônia situada hoje no nordeste da Grécia. O pai era um médico reconhecido - ou seja, um cientista. Se chamava Nicômaco e era amigo do rei da Macedônia Amintas II, Pai de Felipe.
367 a.C. – Aos 17 anos Aristóteles se muda para Atenas com intuito de estudar na Academia de Platão, onde foi um brilhante estudante. Platão estava com 61 anos de idade.
356 a.C. – Nasce Alexandre, filho de Felipe (rei da Macedônia).
347 a.C. – Morre Platão e Espeusipus se torna o novo diretor da Academia. Aristóteles deixa Atenas e se muda com outros colegas da Academia para Assos (hoje situada no litoral da Turquia). Neste período Aristóteles se casa com Pithias, filha de Herméias, rei de Assos e que também freqüentou a Academia de Platão. Aristóteles tem uma filha que assim como a mãe também é chamada Pithias.
344 a.C. – Herméias é deposto. Aristóteles se muda para Mytilene nas ilhas de Lesbos. Se associa com Teofrastos, um nativo desta cidade e também formado pela academia de Platão e faz importantes estudos em biologia.
343 a.C. – Filipe, rei da Macedônia, convida Aristóteles para morar em sua residência e ser o tutor de seu filho Alexander (mais tarde, O Grande) que tem 13 anos de idade.
335 a.C. – Felipe morre. Alexandre sobe ao trono. Aristóteles volta para Atenas e funda a sua própria escola, o Liceu. Neste mesmo ano, de volta a Atenas, fundou o Lykeion, (termo que deu origem a palavra Liceu) cujos alunos ficaram conhecidos como peripatéticos (os que passeiam), nome decorrente do hábito de Aristóteles de ensinar ao ar livre, muitas vezes sob as árvores que cercavam o Liceu. Ao contrário da Academia de Platão, o Liceu privilegiava as ciências naturais. Alexandre mesmo enviava ao mestre exemplares da fauna e flora das regiões conquistadas. O trabalho cobria os campos do conhecimento clássico de então: filosofia, metafísica, lógica, ética, política, retórica, poesia, biologia, zoologia, medicina e não só estabeleceu as bases de tais disciplinas quanto a metodologia científica. Durante este período Pythias morre e Aristóteles se casa com Herpyllis que também era nativa de Estagira. Com ela Aristóteles tem um filho chamado Nicômaco.
323 a.C. – Após estender suas conquistas ao Egito, à Síria, Pérsia e Índia, Alexandre o Grande Morre (na Índia); por causa do sentimento antimacedônico, Aristóteles se vê obrigado a sair de Atenas pela última vez.
322 a.C. – Aristóteles morre em Cálsis, na Eubéia.
Referências
1. ↑ Stirn, F. Compreender Aristóteles. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 2006. pp. 15. ISBN 978-85-326-3380-4
2. ↑ João Silva. História da Aquariofilia. Vida Aquática. Página visitada em 18 de abril de 2009.
3. ↑ Zylberstajn, Arden. A Evolução das Concepções sobre Força e Movimento (DOC). Página visitada em 21 de agosto de 2009.