
ARQUIVO CIÊNCIA & VIDA
A ressurreição de Cristo, obra de Raffaello Sanzio (1500)
De todas as religiões, a cristã é, sem dúvida, aquela que mais deve inspirar tolerância, embora até hoje os cristãos tenham sido os mais intolerantes de todos os homens. Jesus, dignando-se nascer na pobreza e na humildade, assim como seus irmãos, nunca se dignou a praticar a arte de escrever. Os judeus tinham uma lei escrita com os maiores detalhes e nós não temos uma única linha escrita por Jesus. Os apóstolos se dividiram a respeito de diversos pontos. São Pedro e São Barnabé comiam carnes proibidas com os Dicionário Filosófco de Voltaire Tolerância - Seção II novos cristãos estrangeiros e se abstinham delas com os cristãos judeus. São Paulo lhes recriminava essa conduta, mas esse mesmo Paulo, fariseu, discípulo do fariseu Gamaliel, esse mesmo Paulo que havia perseguido os cristãos com furor e que, tendo rompido com Gamaliel, ele próprio se fez cristão, em seguida dirigiu-se, no entanto, a Jerusalém, para oferecer sacrifícios no templo, no período de seu apostolado. Observou publicamente, durante oito dias, as cerimônias da lei judaica, á qual havia renunciado; acrescentou até devoções e purifcações que as havia em abundância; agiu inteiramente como judeu. O maior apóstolo dos cristãos fez durante oito dias as mesmas coisas pelas quais os homens são condenados à fogueira em grande parte dos povos cristãos.
Teudas, Judas, se haviam arvorado em Messias antes de Jesus. Dositeu, Simão, Menandro, se apresentaram como Messias depois de Jesus. Houve, desde o primeiro século da Igreja, aproximadamente vinte seitas Judeia.
Os gnósticos contemplativos, os seguidores de Dositeu, os partidários de Cerinto existiam antes que os discípulos de Jesus tivessem assumido o nome de cristãos. Logo houve trinta Evangelhos, pertencendo cada um deles a uma sociedade diferente; e desde o fnal do século I, podemos contar trinta seitas de cristãos na Ásia Menor, na Síria, em Alexandria e mesmo em Roma.
Todas essas seitas, menosprezadas pelo governo romano e escondidas em sua obscuridade, se perseguiam, no entanto, umas às outras nos subterrâneos, onde rastejavam, isto é, proferiam sua abjeção; quase todas elas eram compostas unicamente do segmento mais desprezível da sociedade.
Quando, finalmente, alguns cristãos abraçaram os dogmas de Platão e misturaram um pouco de Filosofa à sua religião, que separaram da judaica, tornaram-se imperceptivelmente mais respeitados, mas sempre divididos em várias seitas, sem que nunca tenha havido um só momento em que a Igreja cristã estivesse unida. Surgiu no meio das divisões dos judeus, dos samaritanos, dos fariseus, dos saduceus, dos essênios, dos judaítas, dos discípulos de João, dos terapeutas. Esteve dividida em seu berço, esteve também nas próprias perseguições que sofreu sob os primeiros imperadores.
Muitas vezes o mártir era considerado como uma apóstata por seus irmãos e o cristão carpocratiano expirava sob a espada dos carrascos romanos, excomungado pelo cristão ebionita, o qual era anatematizado pelo adepto de Sabélio.
Essa horrível discórdia, que já dura há tantos séculos, é uma lição realmente marcante de que devemos perdoar mutuamente nossos erros; a discórdia é o grande mal do gênero humano e a tolerância é seu único remédio.
Não há ninguém que discorde dessa verdade, seja que medite calmamente em seu recinto particular, seja que examine pacifcamente a verdade com seus amigos. Por que, pois, os mesmo homens que admitem em particular a indulgência, a benevolência, a justiça, se levantam em público com tanto furor contra essas virtudes? Por quê? È que seu interesse é seu deus, é porque sacrifcam tudo a esse monstro que adoram.
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Possuo uma dignidade e um poder que a ignorância e a credulidade criaram; caminho sobre as cabeças dos homens que séculos de fanatismo tornaram poderosos. Eles têm outros poderosos sob o jugo deles e estes têm outros ainda, e todos se enriquecem com os despojos do pobre, se engordam com seu sangue e riem da imbecilidade dele. Todos eles detestam a tolerância, como homens que enriqueceram às custas do público têm medo de prestar contas e como tiranos receiam a palavra liberdade. Finalmente, contrataram a soldo fanáticos que gritaram em alta voz: " Respeitem os absurdos de meu senhor, tremam, paguem e calem-se."
Foi assim que se agiu durante muito tempo em grande parte da terra; mas hoje, que tantas seitas disputam o poder, que partido tomar? Toda seita, como se sabe, é um sinal de erro; não há seita de geômetras, de algebristas, de matemáticos, porque todas as proposições de geometria, de álgebra e de matemática são verdadeiras. Em todas as outras ciências, podemos nos enganar. Qual teólogo tomista ou escotista ousaria dizer com convicção que está absolutamente certo daquilo que afrma? Se há uma seita que relembra os tempos dos primeiros cristãos é, sem sombra de dúvida, a dos quacres. Nada se assemelha mais aos apóstolos. Estes recebiam o espírito, e os quacres recebem o espírito. Os apóstolos e os discípulos falavam em três ou quatro ao mesmo tempo na assembleia do terceiro andar, os quacres fazem outro tanto no térreo. Era permitido, segundo São Paulo, às mulheres pregar e, segundo o mesmo São Paulo, era-lhes também proibido; as mulheres quacres pregam em virtude da primeira permissão.
"De todas as religiões, a cristã é, sem dúvida, aquela que mais deve inspirar tolerância, embora até hoje os cristãos tenham sido os mais intolerantesde todos os homens"
Os apóstolos e os discípulos juravam com um sim ou com um não; os quacres não juram de outra forma. Nada de altos dignitários, nada de aparência diferente entre os discípulos e os apóstolos; os quakers usam mangas sem botões e todos vestem da mesma maneira.Jesus Cristo não batizou nenhum de seus apóstolos; os quacres não são batizados.
Seria fácil levar adiante esses paralelos; seria mais fácil ainda mostrar como a religião cristã de hoje difere daquela que Jesus praticou. Jesus era judeu e nós não somos judeus. Jesus se abstinha da carne de porco porque o animal é impuro e da lebre porque rumina e não tem a pata fendida; nós comemos ousadamente carne de porco, porque para nós não é impuro e comemos carne de lebre que tem a pata fendida e não rumina.
Jesus era circuncidado e nós conservamos nosso prepúcio. Jesus comia cordeiro pascal com ervas amargas, celebrava a festa dos tabernáculos e nós não fazemos nada disso. Ele observava o sábado e nós o trocamos;
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